Pedro estava lá, no bar de sempre. Gostava da intimidade que tinha com aquele lugar. Já podia chamar o dono do bar pelo nome. Normalmente, conhecer o dono do bar é um privilégio, indicativo de status elevado. Não lá. O dono era o único funcionário. Ganhava o pão suando o próprio suor – homem de moral. A cerveja gelada era, sem dúvida, o maior atrativo. Num raio de quilômetros não se encontrava cerveja mais gelada por um preço tão baixo. Aquela noite parecia como uma outra qualquer, bebendo com o comparsa. Pedro estava enganado.
Ele reconhecia um grupo no canto do bar. Na verdade só conhecia mesmo um deles, Sérgio. Sérgio era um cara talentoso. Tinha uma facilidade no entendimento da música e tocava piano como ninguém. Gostavam de chamá-lo de Profissional, coisa que ele era realmente. Grande Profissional. O resto do grupo eram só outros bêbados que batiam ponto no bar toda semana. Menos um dele, um gordo. Vestia uma camiseta vermelha, digna de um bicheiro, e um óculos escuro espalhafatoso, ignorando o fato da lua estar alta no céu.
Enquanto conversava com o comparsa e assistia indiretamente à televisão, Pedro notou que os ânimos se esquentavam cada vez mais na mesa do canto. Parecia que seu conhecido não compreendia, ou não aceitava, o que o bicheiro dizia. Era um hábito quase que involuntário esse de prestar atenção à conversas alheias, mas naquele dia ele se mostraria muito útil.
Pouco tempo antes de Pedro decidir ir para casa, Sérgio passa por perto da sua mesa comentando o que se passava na mesa do canto. Pelo que Pedro pode escutar, o bicheiro era um cara negativo ou como dizia seu conhecido, uma bad trip. Naquela hora, Pedro decidi ir ao banheiro, já que estava de saída. Assim que entrou no banheiro, um forte estrondo fez com que o barulho da TV cessasse. Uma sequência de tiros finalizou aquela orquestra de Hades.
Pedro ficou estático. Não se ouvia nada. O que havia atrás daquela porta já não era como ele conhecia, isso era certo. Ele sabia. O medo tomou conta de seu corpo, quando ele lembrou do seu comparsa. Abriu a porta rapidamente e deparou-se com a cena mais grotesca que já havia visto até aquele momento. Pela sala somente pedaços dos que antes ali bebiam e esqueciam dos problemas. Uma parte do telhado do bar estava desabada, devido à explosão. No meio de toda destruição, um grande buraco e muito sangue pelo chão. O bicheiro era, na verdade, um suicida em uma missão.
Naquela noite, ele havia obtido sucesso. Não pleno, pois Pedro ainda estava ali.